"D. Sebastião e o Vidente" e Deana Barroqueiro dinamizam Almeirim
Porto Editora

"D. Sebastião e o Vidente" consolida movimento para recuperação
da Capela de Paço dos Negros

por Fernando Santos, Jornal Luso-Americano



D. Sebastião em Paço dos Negros
Deana Barroqueiro

Seria da minha parte uma enorme ingratidão, de que me envergonharia para o resto da minha vida, se não usasse esta minha página para dar testemunho aos meus leitores e amigos do modo generoso – acrescido de gentileza e calor humano (amizade, sem dúvida!) – como fui recebida, no dia 13 de Outubro, pelas gentes, instituições e autarquias das terras de Almeirim, particularmente, em Paço dos Negros e na Quinta do Casal Branco, durante um evento cultural nascido espontaneamente da leitura do meu romance.

O reconhecimento por um livro e um escritor que divulgaram aspectos e factos da terra que até muitos dos seus naturais desconhecem gerou grande entusiasmo e um movimento espantoso em torno do romance, a ponto dos seus organizadores criarem o dia de “D. Sebastião em Paço dos Negros”, com uma série de eventos culturais e de confraternização que culminaram com a apresentação do romance para uma assistência numerosíssima, não só de Paço dos Negros mas também de outros lugares do Concelho.

Conhecia Almeirim de passagem e não foi com qualquer intenção de promoção pessoal que pus o início da intriga do meu romance "D. Sebastião e o Vidente" no Paço dos Negros, mas por Almeirim ter sido a "Sintra de Inverno" da Corte, lugar onde aconteceram factos históricos de grande importância durante o Renascimento que marcaram a vida da minha personagem principal – o Rei D. Sebastião.

Além disso, Paço dos Negros – que me aparecera mencionado nas crónicas do tempo como um lugar de eleição para o "desenfadamento" do reizinho – era um nome mágico, capaz de suscitar a imaginação de qualquer escritor, com um enquadramento natural a pedir intriga de amores e espionagem. No entanto, durante a pesquisa de dados para o romance, há mais de três anos, foi-me muito difícil encontrar informação acessível (o horário completo de professora e a incapacidade visual impossibilitam-me a investigação em arquivos e bibliotecas) sobre o Concelho de Almeirim, nessa época histórica.

Julgo que, presentemente, já não teria tal dificuldade, graças ao amor, trabalho e dedicação de muitos filhos da terra que tentam preservar e mostrar os tesouros que ainda resistem à destruição do tempo e da incúria (ou da ignorância, desinteresse e ganância dos governantes). Desses destaco aqueles com quem convivi e me emocionaram com a sua paixão: Aquilino Fidalgo (com a sua luta pela recuperação do Paço dos Negros, o paço/pavilhão de caça mandado construir pelo rei D. Manuel), Manuel Evangelista (com o estudo e divulgação da história e dos mitos daqueles lugares), António Brites (do Rotary Club, para dar conhecimento das paisagens da ribeira de Muge e da Serra), a família Vasconcellos (da Quinta do Casal Branco, a coutada de caça tão amada por D. Sebastião, agora com os seus vinhos de marca e as coudelarias do cavalo lusitano), os elementos da Confraria Gastronómica (para a preservação das receitas tradicionais, como o bolo finto ou a sopa de pedra), os proprietários do Convento da Serra (aonde se acoitava o Desejado, quando atacado de melancolia) ou ainda autarcas como o vereador José Carlos Silva, tão aberto às manifestações culturais e ao desenvolvimento da terra.

Quanto não daria eu para ter visto, no tempo de pesquisa, o extraordinário pombal do séc. XVI com mais de mil ninhos para criar pombos para alimento dos falcões de caça (um dos 2 únicos exemplares que existem na Europa e mais original do que o italiano e que deve ser preservado a todo o custo para que portugueses e estrangeiros o possam admirar) que me foi mostrado por Sofia de Vasconcellos na Quinta do Casal Branco ou ainda ter podido descrever no meu romance a "dança palaciana" (de uma riqueza e originalidade capazes de competir e ganhar prémios em qualquer concurso internacional de danças tradicionais), assim como a preciosidade do "Romance de D. Inês", cantiga medieval primorosamente executada pela jovem Solange, do Rancho Folclórico do Paço dos Negros! Ou o bolo finto, recuperado pela Confraria Gastronómica, acompanhado pelo espumante Monge, do Casal Branco, na recepção oferecida pela família Vasconcellos. Ou ainda a Sopa de Pedra do restaurante de Paço dos Negros. Não deixaria de transpor para o meu livro esses testemunhos de um passado que fazem parte da nossa memória colectiva e da nossa identidade como povo.

Queria também deixar aqui a minha gratidão a todos os que contribuíram para que a minha ida a Almeirim/Paço dos Negros fosse um dos momento mais emocionantes e calorosos da minha vida. É raríssimo, pelo menos para um escritor que não seja "mediático", ter uma assistência tão numerosa e tão atenta e interessada. Duas coisas me comoveram particularmente: o terem-me dado o título de “Filha de Paço dos Negros” e se terem proposto criar um grupo que possa ler o romance àqueles que não sabem ler e manifestaram a sua mágoa por não poderem conhecer o livro. Pode haver para um autor algo mais doce do que isto? Um dia perfeito, das dez da manhã à meia-noite, que não esquecerei enquanto viver!

Bem hajam todos os que contribuíram para essa festa maravilhosa, sobretudo os seus organizadores cujo trabalho não pode ser quantificado, nem tem preço. Para mim, basta o facto de, depois do sucesso do Dia de D. Sebastião no Paço, terem conseguido os apoios necessários à recuperação da capela histórica de Paço dos Negros, para valer a pena ter escrito este livro.





Fotos de:
Fátima Condeço - http://fatcond.com.sapo.pt
Aquilino Fidalgo - http://sebastiaonopaco.com.sapo.pt
e João Pires Ribeiro

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